Tuesday, September 05, 2006

Na portaria

- Por favor seu fulano, você pode entregar isso aqui pra minha amiga, é uma alta de cabelo comprido que mora comigo.
- Ah, uma que vive trazendo homem pra cá?!

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-Oi seu fulano, você pode deixar eu estacionar meu carro na garagem? Sou irmã da moradora.
-Ah sim. Eu conheço seu pai, suas irmãs, sua mãe e sua irmã. Mas você eu não conheço, então não posso deixar entrar.

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-Boa noite.
-Boa noite.
-Então, é que entrou um morcego no meu apartamento, ele está morto e eu queria saber se tem alguém aí pra vir aqui remover o cadáver.
-Um momento.
-Oi.
-Oi.
-Então filha, não tem ninguém disponível, você vai ter que se virar.
-Mas o que eu faço com ele?
-Joga fora ué.
-No lixo comum? Não é falta de respeito?
-Um momento.
-Oi.
-Oi.
-O zelador falou que pode jogar no lixo comum mesmo.
-Ah...mas eles demoram pra recolher e o bicho vai apodrecer no corredor e vai ficar fedendo!
-Um momento.
-Oi.
-Oi.
-Olha, eles vão passar de manhã aí pra recolher o lixo.
-Tá...mas eu continuo com nojo de tirar o morcego morto daqui!
-Olha minha filha, se eu pudesse eu saia saqui pra te ajudar, compreendo a sua situação, mas existem horas na vida de uma pessoa que é necessário ter força pra fazer certas coisas. Tenha fé.
-Obrigada pelo incentivo!
-E como foi mesmo que ele morreu?
-Se suicidou.
-Ah, que bom então, pelo menos o trabalho de matar você não teve né?!
- ...

Dona J.

Todas as moças bem-vestidas e bem-educadas de vinte e poucos anos em algum momento de sua juventude irão encontrar a Dona J..

Nos dias atuais a Dona J. pode ser sua tia, a tia de alguém, a cunhada da vizinha, a mãe da amiga, a professora da faculdade, e, pasmem, até mesmo um homem. Mas Dona J. é sempre uma pessoa que já passou faz um bom tempo dos vinte e poucos.

Uma pessoa atenciosa, meiga, um pouco venenosa e fofoqueira, Dona J. adora falar da vida de parentes que você nunca viu, de conhecidos famosos, e contar estórias sobre a vida alheia.

Mas o que diferencia a Dona J. de todas as outras pessoas velhas e fofoqueiras é que a Dona J. é uma alcoviteira.

Em outras palavras, Dona J. vai querer arranjar casamento pra você.

E o dia do seu encontro com Dona J. é um divisor de águas.

Hoje foi meu dia.

Minha Dona J. é vizinha de papai, e, como Dona J. nunca aprendeu a fazer a declaração pro IR, papai, um fiscal aposentado, todos os anos, senta-se ao lado de Dona J. para ajudá-la com a tarefa indigesta.

Hoje Dona J. apareceu para o almoço pela primeira vez.

A hora havia chegado.

- Ah, essa é sua filha. Nossa, como ela bonita, elegante...tem um ar de inteligente! Seu pai disse que você estuda na USP, não é? (...) Sabe, o filho do meu sobrinho também estuda lá. Faz engenharia! Ele é muito inteligente, super-educado, alto, bonitão...bonito mesmo, não é porque é da família não. (...) Você mora aqui do lado não é? Ele mora duas ruas pra baixo! Olha que perto! (...) Você precisa conhecer o L. F. (sim, agora ele já tem até nome)! (...) Olha, passa lá em casa um dia desses que eu faço coalhada seca!

A partir deste encontro minha vida pode mudar.

Eu posso decidir andar três quadras até a casa de Dona J. no próximo domingo pra comer coalhada...eventualmente esbarrar com o tal L.F. e...bom, não preciso contar o resto da estória...ou então...sentar com o pote de iogurte diet na frente da TV.

É...vou precisar sair pra comprar iogurte, coalhada demora muito pra ficar pronta, é meio insossa e quando você finalmente vai comer, ela já azedou.

Transporte Público

Eu já estava bem acomodada no onibus. Pés apoiados no banco da frente, música, olhos fixos na janelinha.

Um cara se sentou do lado e começou a ler um livro de neurociências.

O tipo me encarou por alguns instantes, e eu percebi que a música que saia do meu i-pod estava muito alta e estava atrapalhando o momento de leitura no transporte público do sujeito.

Dei um sorriso amarelo e abaixei o volume. (saco)

O cara começou a puxar papo.

Neurociências, psicologia comportamental, behaviorismo, música erudita, Machado de Assis, jazz, o último filme cabeça da semana, Lacan, pilates...e todas essas coisas que servem pra você comparar o seu nível de chatice com o de algum possível pretendente*.

*todo e qualquer homem é um possível pretendente até que se prove o contrário.

Imagino que foi no exato momento em que ele estava falando de Dostoiévski, e eu, num lapso, falei que a melhor tradução era de um tal de Bezerra...o cara se apaixonou.

Agora, dia sim, dia não, recebo telefonemas do fulano.

No começo até tava gostando, uma leonina nunca dispensa tal grau de atenção. Mas agora está um puta-saco e parece que indepedentemente do que eu disser o fulano vai continuar insistindo.

Respostas monossilábicas, namorado imaginário, viagem imaginária, virose (essa de verdade), pausas longas...já tentei de tudo.

Mas hoje vi a luz no fim do túnel.

Vou dizer que amo...

PAULO COELHO

Vive la greve!





Eu ja havia presenciado uma greve de ônibus aqui em La Rochelle, que provocou apenas um disturbio na minha existência: uma breve dor de ouvido por ter tido que andar a pé de manha no vento gelado.

Ontem teve greve de novo, mas dessa vez, greve dos agricultores. Foi super!

As ruas do centro estavam cheias de feno e cocô de cavalo, vaca, talvez de gente, parecia uma fazenda no meio da cidade! Jogaram feno até na agua represada do lago.

O trânsito estava uma bagunça, a cidade cheirava a merda. Varios agentes especiais tentavam a todo o custo remover o feno das ruas, quase sempre numa tentativa frustrada por causa do constante vento costeiro. Todos os ônibus estavam atrasados. Todo mundo estava atrasado. Maquinas agricolas dividiam o espaço publico com varios carros munidos de sirenes. A neblina era densa, e o frio so fazia piorar tudo.

Eu adorei! Me diverti a valer chutando longe os blocos de feno que encontrava pela frente.

Hoje tudo voltou a ser sem graça. A cidade voltou a sua perfeiçao de sempre.

Eu decidi fazer greve contra a chatice e cabular a aula de francês.

Vive la France!

Dia de Princesa

mercredi, janvier 11, 2006

Fui criada por intelectuais uspianos, e, na minha casa, a unica tradiçao era ver minha mae fazendo a tese de doutorado enquanto eu desenhava nos papeis cheios de rascunhos matematicos que papai colocava de lado.

Até tentaram fazer natais em casa. Em vao. Nunca eram iguais aos natais americanos das casas das minhas amigas e primas.

Por isso, adoro observar as dinâmicas familiares dos outros. Ontem, minha familia francesa me apresentou a uma comida pos-natalina tradicional da França, que, pra mim, nao passava de uma rosca. Explicaram que dentro da tal rosca havia um brinquedinho escondido. Quem pegasse o pedaço com o brinquedinho, virava rainha, ou, no caso do pai, rei, e recebia uma coroa feita de papel cartao dourado.

A mae escondeu a rosca de todos e pediu pra caçula da familia escolher qual pedaço pertenceria a qual pessoa da mesa. Feito isso, todos procuraram o brinquedinho afoitamente. Saborear a rosca era secundario.Ninguém pegou o brinquedinho e ainda faltava metade da rosca. Decidiu-se deixar a outra metade pra comer hoje à noite.

Inconformada, a caçula mimada pegou a coroa e colocou-a na cabeça.

Quebrando as regras, disse: - Agora eu sou a rainha!!!

A mae falou que ela nao tinha achado o brinquedinho, que nao era rainha coisa nenhuma e fez um movimento para tirar a coroa da cabeça da filha.

A filha desviou-se: - Nao me toque!!! Eu sou rainha agora!!!

A mae olhou-a com desprezo.

As pessoas levantaram-se da mesa e começaram a colocar a louça suja na maquina enquanto a caçula vociferava: - Eu sou rainha, eu sou rainha!!!

Alguns minutos depois, a mae se enfezou com a gritaria.A cabeça da jovem Maria Antonieta rolou sobre a mesa da cozinha.

Os gritos cessaram.

A coroa voltou ao balcao de marmore.

Um sorriso maléfico iluminou a face da plebéia latino-americana.

Divertidissimo.

Rainha da Noite

dimanche, janvier 15, 2006


Eu sempre acreditei em principe encantado. Nao fico espalhando aos quatro ventos pra nao dar vexame...

...mas nunca duvidei de sua existência.

Quando eu era criança, meu pai teve que me levar nove vezes ao cinema pra assistir A Pequena Sereia. Na décima vez, ele desistiu: comprou a fita de video.

Minha coleçao de fitas de video de princesas da Disney tornou-se bem consideravel. O que me proporcionou um verdadeiro pos-doutorado em matéria de principes encantados e historias de princesa, aos nove anos de idade.

A maioria das pessoas nao entende nada de princesa nem principe encantado, por isso sai por ai falando o que nao deve.A verdade é que princesas existem, assim como principes encantados.

As princesas nunca tem mae. Mas a maioria tem um pai genial, que encara qualquer tipo bizarro de principe encantado que as princesas arranjarem por ai: monstros que vivem sozinhos em castelos encantados, homens comedores de peixes, caras que aparecem do nada num cavalo branco totalmente sem rumo na vida, e, até mesmo, exploradores europeus das terras alheias.

Claro que, pra encontrarem esses tipos, as princesas sao reeeealmente sem noçao. Conversam com bichinhos da floresta, cantam e dançam com candelabros e relogios animados, enxergam fadas e forças da natureza, e, mantêm amizades suspeitas com peixes e ratos falantes.

Tem gente que fala que as princesas fazem uso intenso de substancias alucinogenas. Que nada.

Princesa que é princesa nem sabe direito dessas coisas. Afinal, as princesas sao extremamente ingênuas. Por isso, elas sempre acabam se metendo em roubada.

Independentes, passeiam sozinhas em florestas distantes; aceitam maças de gente estranha da rua; consultam bruxas que habitam regioes suburbanas, pois adoram ciências ocultas; entram em castelos e lugares abandonados...Mas tudo nas melhores das intençoes.

E é sempre nessas horas e locais trash que os principes encantados aparecem.E, ao contrario do que diz o senso comum, as princesas nao sao passivas.

Elas NUNCA esperam pelos principes encantados.

Princesas de verdade sempre vao atras dos principes, a nao ser que se encontrem num estado de coma profundo ou enclausuradas numa torre. As princesas sempre lutam pelo que querem, ou pelo que acham que querem, o que, de um jeito ou de outro, faz delas moças que vivem felizes para sempre

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Quinta-feira, 02:30 am.

Eu, semi-acordada num sofa vermelho, cobrindo as pernas com o casaco.

Uns gatos pingados se comendo ao lado e minhas amigas dançando com cara de tédio segurando uma bebida qualquer.Algumas pessoas chacoalhavam seus esqueletos num mastro de metal estilo clube de striptease.

Eu fechei os olhos por um tempo.

Abri.

Vi que um cara esfregava a bunda no mastro em pleno estado de êxtase.

Fechei os olhos novamente.Mais pessoas chegaram.O mastro estava lotado e varias pessoas feias se esfregavam umas nas outras.

Puta saco.

Tive uma vontade repentina de subir la e me juntar as pessoas feias.

Minhas amigas reprovaram a idéia.

Fui até o banheiro e vi um cara mijando de costas.

Voltei, tomei coragem, e subi no mastro desajeitada.

Um dos caras me puxou pela mao num ato de solidariedade. Meus olhos se fixaram nele...

Saimos juntos daquele lugar.Ele era perfeito e me tratou como rainha.

Mas...eu tive que ir embora de repente sem deixar muitas pistas de como ele poderia me encontrar.

Um passarinho amigo anotou o telefone dele e veio me contar.E, eu, como toda a boa princesa, vou ligar pra ele.